terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Olhos verdes
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Este fim-de-semana não fui dormir a casa.
Tive uma sexta-feira atribulada, com uma aula de Violoncelo que podia ter sido bastante melhor. Tenho muita música para fazer e decidi ficar a dormir no instituto.
Fui deitar-me na sala 41, onde dormem os rapazes de cordas do secundário. Vi que as outras camas estavam vazias, para não variar. É uma sala um bocadinho solitária, desde que o Alberto se foi embora (nunca imaginei dizer que sinto a falta dele por ali, já que estava sempre a queixar-me da confusão e do barulho que ele fazia). Às vezes o Jorge vai lá fazer companhia e nesses dias fico acordado até às tantas a falar sobre tudo e mais alguma coisa com ele. Quanto mais nerd for o tema de conversa melhor.
Mas apesar da solidão durante a noite é bom dormir ali. Todos os que dormem nesta casa, tornam-na numa espécie de lugar encantado. O gosto pela música une-nos telepaticamente, como uma radiação de fundo permanente, sempre a libertar energia (sim, eu sei o que estão a pensar...)
Acordei no sábado de manhã, com o cabelo virado do avesso, como é costume. Só faltava aparecer a Laura para dar uma gargalhada arpejada e dizer "O teu cabelo está cómico!". Ela já não mora aqui. Dorme cá às vezes, telefona todos os dias, mas agora casou-se com a música e foi viver para uma nova casa. Mas como todos os bons gregorianos, vem cá sempre aos almoços de Domingo. Cruzei-me foi com a Mafalda, que vinha da camarata feminina das pianistas do secundário (sala 44). Ela olhou para o meu cabelo e esboçou um sorriso muito discreto.
- Podes gozar se quiseres! - disse eu.
- Com o quê? Não sei do que estás a falar. - respondeu com um ar culpado e cómico.
Fui à sala 23 (WC) tratar da minha vida, e desci depois para a 10 (sala de alunos) com o meu pijama das vaquinhas. Havia imensas crianças (das quais reconheço as caras mas nunca sei os nomes) a ver os desenhos animados da manhã projectados na parede com um daqueles aparelhos que ganhámos numas rifas quaisquer. Não estava à espera de encontrar tantas crianças a passar cá o fim-de-semana. Às vezes nem tenho noção do quanto eles gostam de estar por aqui, mesmo que não seja para tocar ou cantar. Com o tempo, de certeza que esse espírito de pertença vai passar para a música que eles fizerem.
Mas não podia ficar ali especado a ver televisão com a quantidade de coisas que tinha para fazer. Fui de pijama ao Caravela, tomar o pequeno-almoço. Cheguei a pensar comer uma tosta de atum, com a fome tinha, mas fiquei-me pelo pãozinho de ló, que me pareceu mais adequado à altura do dia. Quem estava por ali sentado era o Daniel e a Filipa. O Daniel já estava arranjado para sair, porque nesse dia ia a Mafra buscar a pedaleira nova que ficara pronta uns dias antes. A Filipa estava à conversa com ele, e com uns cadernos lá das coisas que ela estuda. Estavam a rir-se, como só podia ser. Provavelmente uma piada seca da Filipa ou uma piada geek do Daniel. Qualquer um dos dois eventos é possível, e quaquer um deles tem qualidade suficiente para provocar muitas gargalhadas.
Um bocadinho depois entrou a Margarida ainda enrolada numa manta. Estava com frio, porque acabara de acordar.
- Então? Pronta para fazer música? Temos ensaio do quinteto daqui a pouco. - perguntei
- Sempre, claro! Mas só depois de fazer uns vocalizes matinais para ver se aqueço um bocadinho. Faço até ao Fá7 e vou logo ter convosco.
Entrou logo a seguir o Jorge que parecia já ter acordado há horas. Já estava vestido, trazia um bloquinho de notas e parecia, como é habitual, estar a definir um plano para controlar o mundo. Pegou no bloquinho e abordou-me.
- Olá! Olha, temos de ir daqui a um bocado às compras para o jantar!
- Ah! Já nem me lembrava... Vem cá toda a gente!
Naquele dia tínhamos combinado fazer um jantar com a famelga toda, incluindo os emigrantes que vinham cá de propósito desde a Holanda, Itália, Inglaterra, Aveiro e até Évora! E era eu que ia cozinhar, como já é habitual. O que vale é que a Teresa vinha cá ter mais cedo para me ajudar. Engraçado como ela, apesar de parecer isolada do mundo, é depois uma pessoa tão prática, disposta a ajudar no que for preciso. Foi viver para fora de casa, como a Laura, mas também continua a vir aqui todas as semanas. Continuei a conversar com o Jorge:
- O que é que se faz logo à noite? - perguntou ele.
- Epá, podia fazer bolonhesa que acaba por ser o mais prático. Não, se calhar vamos para a lasanha que é para o pessoal ficar todo contente. E depois podíamos jogar ao lobo, e cantar um bocado, talvez.
- Parece-me bem, desde que não me obriguem a cantar cânticos Hindus!
- Ahah, por muito tempo que passe acho que me vou continuar a rir dessa história.
Fizemos uma lista de compras e fomos para o ensaio do quinteto. Já lá estava a Rita na 26, ainda de pijama, toda contente a ver a parte de piano do quinteto. O entusiasmo que ela tem a tocar aquilo deixa-me mesmo feliz. Vejo nela as capacidades para vir a ser uma grande intérprete. Chegou entretanto a Sofia, com um ar todo enérgico e cheia de vontade de voltar a pegar no Violoncelo, e depois a Margarida, já mais acordada. E tivemos um ensaio do caraças (perdoem-me a expressão). Senti-me verdadeiramente honrado por ter a oportunidade de fazer ESTE trabalho com ESTES amigos. Já mais para o fim do ensaio, começámos a tocar músicas de Natal na brincadeira, com harmonias malucas e com o Jorge a fazer glissandos no Jingle Bells.
Ouvi a certa altura um piano na 27.
Lá! Lá! Dó#! Mi! mi-ré, dó#-si, lá-sol#, fá#-mi. Si! Si! Ré! Fá#! Miii! Ré-Mi...
Fiquei estático e com o coração a bater um bom bocado mais depressa. Não era suposto... Ela tinha-me dito que este fim-de-semana ia a casa. Mas agora não a podia interromper. Que dilema... Contive-me e fui para a sala de alunos. Depois da algum tempo na conversa ouviu-se A pergunta "Bora ao topo?" vinda do Pombo, que estava de máquina fotográfica na mão. Tinha passado um Antonov 225 ali em cima, e ele teve de o fotografar, obviamente. Toda a gente concordou e para lá nos encaminhámos, que estava na hora do almoço. Mas havia alguém que tinha de ir chamar. As saudades já apertavam fortes demais. Fui ter à 27. Ouvia-se vagamente o som do piano cá fora. Abri a porta de rompante, para encontrar uma professora a tocar uma coisa qualquer. Parou imediatamente quando entrei e perguntou:
- Tens á cértêza de que nâu te querez ir imbôra?
- Ah, desculpe... foi engano.
E saí entristecido. "Que fail! Pensei que... Bolas, vou mas é almoçar."
Entretanto ouvi o órgão a tocar. Era o Ricardo. Passei por lá para o trazer para o Topo.
- Would you fancy a bite to eat at "the top"?
- Yeah mate! Sure. - respondeu com sotaque escocês. E continuou:
- Olha, está aí a chegar o Afonso! Hi lad!
- Afonso!!! Que é feito! Já tinha saudades tuas! Fazes falta por aqui... - disse eu.
- Epá, ando com uns stresses, sabes comekié. - e deu um abraço a mim e ao Ricardo.
- És sempre a mesma coisa. Temos muito de conversar! Há muita informação para actualizar rapaz! - ralhei com ele.
- Sim, também me aconteceram umas cenas e tal...
- Depois falamos melhor. Agora vamos almoçar, tens de vir. Então e o Zé?
- Já está aí a chegar. Está a acabar um projecto de programação.
- Faz bem ao carácter. E umas bananinhas ajudam sempre. Ahah!
Acabaram por vir também muitos outros almoçar. O António, a Carolina Sá, a Laura, a Mafalda, a Ché, a Leonor, a Maria da Paz, o Luís e a Carolina Correia. A Ana Raquel veio, já sem cornetos, e trouxe consigo o seu maestro Oliveira. Foi a risota total durante o almoço. Falou-se de tudo e mais alguma coisa. Até já ficámos com mais um concerto em Alverca marcado! Sabe tão bem estar com esta gente. Já quase no final dos nossos hamburgueres, e entrou o TiagoA, no seu pijama com os carrinhos.
- Então, que tal esse sono de bela adormecida?
- Epá, foi do bufo. Dormir e comer. Este dia promete! - exclamou o TiagoA.
- Ahah! Granda deboche! Temos de ir daqui a um bocado às compras. Vens comigo e com o Jorge para nos ajudares a carregar a cerveja.
- Na boa! Mas até parece é que eu só sirvo para isso. AHAH!
Entretanto, olhei pela janela do Topo e reparei que uma rapariga estava a passar em frente ao instituto com um saco que parecia estar carregado de livros. Podia jurar que... "É só impressão minha", pensei, e deixei isso para trás. Acabámos por ficar imenso tempo ali na conversa e a fazer desenhos na mesa do restaurante. Depois de pagarmos fomos às compras. A Laura entretanto tinha mandado uma mensagem a dizer para gastarmos pouco dinheiro. "Preocupa-se demais! Mas é um xuxu!", pensei.
Durante o tempo que tinha livre fui estudar o concerto de Saint-Säens, o Bach, e o raio dos estudos do Popper... E estudei como nunca tinha estudado. Só espero fazer bem aquele exame. Vai ser a última coisa que eu faço naquela casa.
Estava quase a chegar às 18.00. A essa hora passava por cima do IGL o nosso jacto particular que trazia a Ana, o André e a Bayley. Eles iam saltar de pára-quedas ali à frente da câmara. Desta vez até o Manuel vinha, só para verem a dimensão do evento. Mas entretanto chegavam de helicóptero o Alberto, a Débora e a Eunice e o Luís P. Deu para reconhecer a Débora, porque vinha com um daqueles carrinhos de compras das velhotas com legumes da horta. E ouviu-se ao fundo o barulho de um avião. Eram os estrangeiros a chegar!!! Estava com uma vontade de ver aquelas pessoas! Voltar a partilhar nerdisses com a Bayley, mostrar-lhe as minhas composições e ver as descobertas musicais dela. Ir ao bairro com o Manuel. Falar com o André sobre tudo aquilo que temos em comum, desde o IST à religião, e claro, a música. E dar um abraço mesmo grande à Anny, e dizer-lhe como ela é uma pessoa mesmo importante na minha vida.
Mas agora a confusão era demasiada. Estavam todos numa excitação. Os putos todos queriam falar com o André que andava sempre na brincadeira com eles o ano passado. O IGL parecia o mesmo de há 2 anos. Nem melhor nem pior. Simplesmente com pessoas diferentes e com nós próprios a vê-lo de forma diferente. Só faltava agora a Teresa e a Laura que vinham com o VV (a sua presença tornava este jantar numa actividade inter-institucional). Ouviu-se um riso irreconhecível. Eu respondi com o meu riso de trolha, e desencadeou-se uma reacção em cadeia, em que a Teresa estava já quase no chão de tanto rir. A Filipa ainda não tinha observado este fenómeno, e perguntou discretamente à Anny se era desta que tínhamos dado em doidos, enquanto as duas faziam uma análise psicológica do assunto.
Depois de tudo isto reparei que entrava na 5 de Outubro um Citröen AX com um ar muito velhote. "Não é possível! Ela está cá afinal? E a conduzir?". O carro aproximou-se, abriu-se a janela:
- Olá Franny! Como te corre a vida?
- Estás aqui! - disse eu, quase a saltitar de emoção.
- Não. Sou um holograma.
- Hey! Essa piada podia ser minha... Mas agora a sério! Não disseste que ias a casa? - perguntei, ainda sem perceber muito bem o que se estava a passar.
- Disse. Mas foi mais forte do que eu. Por mim ficava aqui sempre. Vim para cá estudar de manhã, e vou dormir cá hoje.
- Então eras tu a tocar piano hoje de manhã?
- Sim, sabia que tinhas ensaio e não te quis incomodar.
- E porque é que não me disseste nada? Porque é que não vieste almoçar connosco?
- Às vezes também gosto de causar impacto... Não podes ser sempre tu a fazer coisas não planeadas! Hihi... Fui a casa, e estreei-me a conduzir o carro sozinha, depois de ter passado na condução! Fui lá buscar uns vídeos de que me tinha esquecido para vermos hoje com toda a gente.
- Ainda bem que vieste! Este jantar só pode correr bem!
E estava tudo preparado para uma noite em cheio. O "salão" 6 ia receber a maior lasanha do mundo e a maior dose de crepes da história! "Podes me fazer companhia? Isso chega (desta vez não há frango para cortar). Ao trabalho! Teresa, corta aqui umas cebolas! Anny, há béchamel? Laura, dás-nos apoio moral? Tiago, arranja-me aí uma cerveja e ajuda-me a fazer a massa para os crepes... é que não há batedeira outra vez. Sr. Viana, passe aí os oregãos. Devem estar na prateleira de órgão."
E enquanto cozinhávamos na copa íamos ouvindo a música a ressoar pela casa. As paredes estavam vivas. O órgão tocava com todos os registos pelas mãos do André enquanto se experimentava a nova pedaleira do Daniel. Na sala de alunos cantavam-se Motetes de Bach. As salas com piano estavam quase todas ocupadas. As crianças brincavam às escondidas, arriscando-se a ganhar um ralhete da Dona Lina. Dois Violinos tocavam na sala ali ao lado: Ré, mi, fá, soool, fá, mi, dó, ré...
Como correu o jantar? Alguém que conte!
Francisco Moitinho de Almeida
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
E chegou ao fim mais um dia,
como sempre, cansativo. Hoje coube-me a mim mandar as crianças para a cama e certificar-me de que todas iam dormir e não andavam a passear pelos corredores e a ir roubar bolachas à cozinha.
Ainda ouvia os miudinhos a tocar violino e violoncelo e, ao longe, a fantasia improviso de Chopin. “Quem estará a tocar isto?... Bem, vou mas é deitar estes pequeninos.”
- Hey! Pessoal! É hora da caminha.
- Mas amanhã temos audição… – lamentou o Pedro.
- O importante é dormirem bem e já se está a fazer tarde! Amanhã acordam cedo, vá! Cama!
Olhei para o chão e estava cheio de papéis. Tinham estado outra vez na brincadeira, mas ia ser eu a limpar isto! Ai não mesmo!
- Oh crianças! – Eles pararam – Vocês os três aí. – Um deles era o Pedro.
- Hey! Eu não sou nenhuma criança, tenho onze anos. – respondeu um dos outros dois.
- Pré-adolescentes, aspirantes a pessoas, sei muito bem que vocês andaram aqui na galhofa e sujaram isto tudo! E agora? Quem vai limpar? Acham bem serem outras pessoas que não tiveram nada a ver com isto? Vá! Toca a andar! Os três a apanhar esta lixarada! Rápido!
Eles puseram os olhos no chão rapidamente e colocaram os papéis todos no caixote.
E lá foram para cima.
Entretanto, na entrada principal lá estava a Maria da Paz a tramar das suas.
- Maria, tu estuda, rapariga!
- Ai Magui! – Assustou-se. – Já sei. Tenho que trabalhar! Quais é que eram mesmo os trabalhos de ATC?
- Estão em cima da minha secretária. Tens autorização para entrar no meu quarto. Vai lá e vê se descansas.
- Sim, Magui. Obrigada. Boa noite.
- Boa noite, Maria. – Sorri.
Biblioteca vazia (o senhor Viana já saiu há umas quantas horas, o Jorge já enviou todos os mails que tinha a enviar e o Pombo já anotou todos os aviões que vão aterrar no aeroporto amanhã de manhã).
- Então, Gori? – o Igor vinha agora da sala de alunos.
- Elas estão a cantar… E eu já não consigo ouvi-las mais!
- Pois. Isto também já não são horas! Vai mas é dormir, que estás mesmo com cara de sono!
Apertei-lhe as bochechas, enquanto dizia “Gori Gori Gori”, e ele riu-se e subiu.
Na sala de alunos estava o grupinho das meninas do secundário: as Lauras, Mafaldas, Joana, etc. Tinham uma peça de formação musical nova e não se calavam.
Só me ria com a cara de pânico do Daniel a ouvi-las e a tentar perceber alguma coisa de informática/computadores ou lá o que é! Pff… Essa malta do técnico… ahah. A Margarida, por sua vez, estava entretida com projectos para a AE e com phones, pelo que não deu por nada.
- Meninas, cuidado agora para não fazerem muito barulho que os pequeninos vão dormir e têm audição amanhã. – disse-lhes eu.
- Desculpa, Magui. Já estamos a acabar. Boa noite. – responderam.
Saí da sala de alunos, virei a esquina e o Francisco estava a descer as escadas. Tinha ido buscar o caderno de Estabilidade de Voo para estudar, enquanto me fazia companhia.
Fomos ver, então, lá atrás a sala 5 e a de professores. Tudo vazio.
Quando fomos ao salão, encontrámos a Beatriz. Era ela que estava a tocar o Chopin. Fiquei estupefacta. Bolas! Passamos horas com as pessoas (lembro-me tão bem quando o André lhe tirava dúvidas de Matemática de 9ºano…), falamos sobre as opções para o futuro, mas não imaginamos muitas vezes o quanto têm para dar. Uma coisa é certa: gostámos muito de a ouvir.
Entretanto, foi dormir. E aos poucos toda a casa começou a sossegar.
Voltámos para dentro e vimos o Luís e Carolina a subir, ao mesmo tempo que se picavam mutuamente… Típico. (Será preciso comentar mais? Toda a gente está a pensar o mesmo que eu, right?).
O Jorge e a Filipa já tinham subido para os quartos havia alguma tempo,
Da cozinha ouviam-se gargalhadas a aproximar-se. Claro está! Hoje, o Ricardo e o Tiago tinham ficado encarregues de deixar tudo limpo e a mesa posta para o pequeno-almoço.
- Bem, Ricardo, bora mas é lá para cima que estamos aqui a mais! – disse o Tiago. O Ricardo riu-se, concordando.
- Boa noite, meninos. – respondi com um sorriso.
Voltámos então para a Sala de Alunos, já sem ninguém, e lá ficámos aconchegados no sofá em frente à televisão (ligada na mezzo, é claro). E então comecei:
- Sinto a falta deles… Era tão bom quando eu entrava na sala de alunos e o Alberto estava a dormir e eu atirava-me para cima dele! Ele ficava fulo! E os risos da Laura que se ouviam logo à entrada do gregoriano… E a Teresa sempre no seu mundo a estudar. E o André…
- Já para não falar da Bayley! Opah… Tenho tantas saudades dela! E a Ana faz-me tanta falta… - disse o Francisco.
- Nhaca… É o tempo! Não gosto do tempo! Porque é que não parámos há dois anos? Estava no 12ºAno, não fazia nada, estudava mais piano, passava mais tempo aqui…
- Sabes perfeitamente que não era isso que tu querias…
- Pois não!... Mas estão todos a ir embora… Foi o Tiago, a Bá, depois a Ana, o André, a Laura, a Teresa, o Alberto… Até o Afonso mudou de freguesia! E para o ano…? Ainda cá fico. Bolas! Sinto-me velha.
- Não vale a pena pensares nisso agora.
Abraçou-me, deu-me um beijo na testa e ali ficámos.
É estranho pensar que para o ano vai mais uma grande dose de gregorianos embora e que no ano a seguir a esse vou estar nesse grupo...
Acho que o melhor a fazer é aproveitar estes dois últimos anos ao máximo!!!!!!!
Magui
domingo, 1 de março de 2009
O que quiseres.
Acordo de novo, lentamente procurando a causa desta rude interrupção do meu sono de beleza; não vejo nada no breu, e os únicos sons são as múltiplas respirações dos ocupantes desta nossa residência. Murmurando um quase inaudível "Bah!", tacteio até encontrar o telemóvel, aquele que comprei entrando na loja e pedindo o mais barato que havia. Quando o encontro, rio-me para dentro ao perceber as coisas que me passam pela cabeça; pensar na história do telemóvel a meio da noite, bah!
Pressiono botões até aparecer luz, e verifico que são cinco da matina. Gaita, uma coisa é não gostar de dormir, mas quando durmo gosto que seja de seguida. Nada disto aconteceria se toda a gente seguisse a minha ideia de viver numa autocaravana... mas até é bom, ninguém reclamaria dos colégios internos se eles fossem como esta nossa família do gregoriano. Cada um mais maluco que o outro, mas é por isso que eu gosto deles. Heh, melisminhas deprimentes...
Dou mais uma vista de olhos, desta vez à luz do telemóvel, e vejo o André a dormir num saco-cama, no chão! Como diria o meu pai, "Cada maluco com a sua mania". Deixa-o lá estar, tem direito a ser maluco com tudo o que faz por nós. Devia substituir a Milu, essa é que era de valor.
Heh, aquela manifestação... mais uma das múltiplas razões que me fizeram continuar em música. E pensar que eu queria sair assim que acabasse o quinto grau! Era mesmo idiota. Nunca teria passado a conhecer a sério toda esta gente fantástica. Hahah, super oriscus... escapa-se-me um pequeno bocejo, e lembro-me novamente de que tenho de fazer o pequeno-almoço. Ah, e o bolo do Francisco! Terei de chular alguém, sobremesas não são comigo.
Sleeeeeeeeeeeeep. Viro-me de barriga para baixo, coloco o telemóvel na cabeceira, e preparo-me para a indubitavelmente longa espera até voltar a adormecer. Eles que se atrevam e acordar-me outra vez antes das sete...
Alberto
We're all in this together!!! :P
Tenho um trabalho de Biologia para entregar na 2ª... Uma ficha de matemática também na segunda... Teste de Biologia na 5ª...!!! Aaahhh!! Tenho de arranjar alguém que me acompanhe na audição de Educação Vocal... que nem sei ao certo se está marcada!...
O meu ar de 3 palavras PÂ NI CO fez-se transparecer durante os momentos em que constatei estes factos... Estava a ser observada. Gosto sempre quando o André tem algo para me dizer. Sei que, sempre que falo com ele, aprendo.
- Magui! Calma. Tu consegues! Com um bocadinho de organização isso vai lá!
- Quero fazer tudo... Não quero deixar nenhum deles para trás!
- Aos olhos d'Ele nada é impossível.
Inspirou-me!
Passei a tarde a fazer uns exercícios de limites (Matemática), enquanto a Rita ia lendo as peças para música de câmara. Estava a gostar daquilo... Ouvi-la, por incrível que pareça, ajudava-me a concentrar.
A seguir ao jantar, fui até à sala 18. Cruzei-me com o Jorge pelo caminho e fomos dar com o Tiago Oliveira a treinar os harpejos do estudo de Chopin, e eu tive uma brilhante ideia! O Tiago é perfeito para me acompanhar na audição! Falei-lhe no assunto. Em princípio tenho este problema resolvido. Menos um! A Ana Raquel estava à espera dele, então saiu. Eu e o Jorge aproveitámos então para treinar para a audição. Eu toquei e depois foi a vez dele... Mas enfim... aquele vício dos números de série é mais forte que qualquer outra coisa... Desisti de o fazer largar o piano...
Subi as escadas. A Laura vinha a descer. Estranhei aquele olhar, queixei-me do Jorge e mal lhe liguei. Mas depois olhei para trás e vi-a descer. Eu gostei daquele olhar. Era amoroso! Tenho saudades de quando passávamos imenso tempo juntas. Tantas gargalhadas! E tantos ralhetes! Enfim...
"Não. Não vou subir." Pensei. Não tinha sono. Fui ver se encontrava alguma coisa sobre Vírus, na Internet, para o trabalho de Biologia. Quando estava para sair, chegou o Afonso. Olhou para o que eu estava a fazer e disse:
- Olha lá! O pé de atleta é um fungo... Tem antigénios e tal... os linfócitos reconhecem-nos. Blablabla. Anticorpos. E afins... porque é que é os fungos ficam sempre lá? O que é que têm de especial?
- Tenho ideia de que eles nunca desaparecem, ficam apenas inactivos.
- Vou pesquisar!
- À vontade! Já estava de saída - sorri.
Fui ver como estavam os ares na sala de alunos. A Laura estava a dormir, havia PÃO DE FORMA COM NUTELLA! com um bilhete. Concordei plenamente!!
Sentei-me ali ao pé. Parei no tempo. Segui o conselho do André: um pouco de organização, e estruturei o dia seguinte. Dava tempo para tudo. Inclusivé para estar ali, naquela sala acolhedora, mesmo sem alcatifa! Porque o que a faz acolhedora são os momentos que ali vivemos... que são tão bons... tão felizes...
Ouço passos! Alguém veio à casa-de-banho. Entrou na sala de alunos. Era o Francisco! Olhou para as sandes e não resistiu. Tentei olhar-lhe com um ar reprovador, mas não fui capaz! Ele fez-me sinal para que eu esquecesse tudo o que tinha visto. Foi o que fiz!
A Laura continuava naquele sono… Lembro-me de uma tarde, e de uma menina assustada, e de um abraço… Já sabes! Sempre que precisares…
Do nada, um som estridente assustou-me!! Mas calou-se logo! A presidente ainda se ajeitou no meio dos cobertores. Era hora de ir dormir. Subi as escadas, passei pela sala 28, vi a porta da varanda aberta e dois vultos altos. Percebi o porquê do som estridente. Malta distraída! Não são miúdos. Não há com que me preocupar.
Cheguei ao quarto. Estavam todas a dormir. Só o meu beliche e a cama da Laura estavam vazios. Deduzi que os vultos que tinha visto eram OS violoncelistas. E estariam a comer sandes de Nutella! A Ana já é crescidinha, mas não deixa de ser por isso que eu, sendo mais nova, não me preocupo. De momento, está com o Francisco. Posso dormir descansada.
"Chega de pensamentos! Tenho muito que fazer amanhã!"
E fui adormecendo, sempre com a alegria de fazer parte desta família, de ter nela irmãos que me compreendem, que pensam em sintonia comigo, que contribuem para aquilo que eu sou hoje, aceitando-me tal como eu sou. Que me estimulam a não querer deixar nada para trás, a querer tudo o que faz de mim a pessoa que conhecem!
Obrigada!
Magui.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
"We are each other's keepers"
Já de pé, varro o quarto com os olhos. A Bayley e a Rita tinham chegado da sua volta nocturna há pouco ('O que é que esta gente anda a fazer a vaguear nos corredores a estas horas? Tsc tsc...', tinha eu comentado com uma careta quando as vi entrar no quarto) mas já ambas suspiravam, cada uma no sono, qual delas a mais barulhenta.
Reparando que a cama da Laura estava vazia, reprimo um suspiro meio irritado por sentir que não conseguia tomar bem conta dela nestas alturas em que ela teima em pensar que é capaz de fazer tudo sozinha. 'Além disso, estava mesmo numa de rever a 6ª de Friends esta noite!', acrescento para mim própria com um meio sorriso.
Não tinha sono. Resolvi ir dar um passeio pelos corredores, talvez ainda alguém estivesse acordado. Claro que no piso dos rapazes tropeço nuns ténis deixados ao acaso no chão. '*+#%&, e ainda mais isto e mais isto e mais isto para os putos!!'. Reprimindo ainda mais uns quantos palavrões, tento levantar-me do chão o mais silenciosamente possível, enquanto decido nesse momento ir apanhar um bocado de ar à varanda.
'Mental note: amanhã dar um calduço ao puto Bruno pela tentativa de homicídio à minha pessoa!' Ao olhar para trás, tinha reconhecido os ténis All Star nº36 com chamas de lado.
Chego à sala 28 e pouso a mão na maçaneta da portada que dá acesso à varanda. Mal faço o movimento de a abrir, um som ensurdecedor ouve-se de repente por todo o lado. Tenho de repente um flashback que envolve pessoas a saltar de janelas e uns estores brancos estragados.
'Merd*... Não acredito que me esqueci do novo alarme de segurança que o EVP instalou!!'
Atravesso a sala a correr e quase me espeto contra a parede enquanto abro à pressa a tampa do alarme. Só preciso do código para fazer calar aquela barulheira. 'Não acredito... Era a data de nascimento da Dona Almerinda, como é que eu não me lembro?!?"
Dois eternos segundos de indecisão depois lá me lembro dos quatro dígitos ('Se a Dona Almerinda sonha disto, mata-me!') e segundos depois de os inserir no teclado do alarme apercebo-me com um suspiro de que o que se ouve agora é apenas aquele zumbido na minha cabeça.
'Man... Espero que esta gente tenha toda um sono muuuiiito pesado...' Rio-me para dentro sabendo que não é verdade, pois lembrava-me de um episódio caricato deste género ocorrido na viagem à Escócia.
Abro finalmente a portada da varanda de par em par e uma brisa de ar fresco bate-me na cara.
'Bem, só falta mesmo estares toda vestida de branco para poderes gritar "Aqui vou ser feliz!!", como no anúncio... Eheheh...' Olho para trás, à procura da fonte desta voz masculina que me é tão familiar. O Francisco devolve-me o olhar do outro lado da sala, ensonado.
'Oh pá desculpa, acordei-te com aquela chinfrineira toda?', pergunto-lhe com um ar aflito.
'Não, mas pensei que era o circo a chegar à cidade...'
Sorrio, reconfortada. O IGL não seria o IGL se eu não chegasse atrasada a 70% das aulas de ATC, e se o Francisco não tivesse sempre uma piada para dizer.
Aproximando-se de mim e da varanda, continua: 'Passei agora na sala de alunos, tive de ir à casa de banho. Trouxe-te o teu maço de tabaco, deixaste-o em cima da mesa... Já sabes que isso não é nada fixe para os putos, olha os exemplos...'
Sorrio, envergonhada. Realmente é um erro crasso, não posso esquecer-me da próxima vez.
Enquanto me estende o maço, o Francisco olha para mim com aquele seu sorriso malandro e acrescenta: 'E olha o que eu também descobri...' E de trás das costas tira duas sandes de Nutella ('do Pingo Doce', presumi rapidamente) com um aspecto divinal. 'Eram para a Laura, acho eu, mas... Pá, eu tava com fome, e ir até ao bar... Nah!'
O meu sorriso abre-se ainda mais. Enquanto nos sentamos no chão da varanda e pegamos cada um na sua sandes, olho para ele com um ar meio-reprovador-meio-brincalhão: 'Mas amanhã de manhãzinha acordamos mais cedo para fazer outras para a Laura!' Ele confirma com um aceno de cabeça e um sorriso, os dentes já cobertos de chocolate.
Enquanto mastigamos calmamente, não consigo deixar de pensar no que esta gente, este sítio, estas pessoas e toda esta música fizeram por mim ao longo da última metade da minha vida... 'Não seria, sem dúvida, metade da pessoa que sou se a minha querida mãezinha não me tivesse obrigado a continuar aqui quando eu quis desistir no 3º ou 4º grau', penso.
"Ainda me vais agradecer um dia...", tinha-me ela dito nessa altura... Realmente, não podia estar mais de acordo.
Lembrando-me de repente, olho para o relógio, já passa da meia noite há seculos! Estupidamente dou uma cotovelada no braço do Francisco, dando-me a mim própria mais uns segundos para engolir aquela última dentada.
'Hey... Já é dia 1, parabéns!!' O sorriso e o olhar de gratidão dele naquele momento valem o mundo, penso enquanto lhe dou um enorme abraço.
'Sabes', diz-me ele, ligeiramente emocionado enquanto se encosta de novo à parede, 'teoricamente temos uma vida inteira à nossa frente, não é? Mas são momentos como estes que a fazem valer a pena...' Mais uma vez, não podia estar mais de acordo.
Imperturbáveis.
Tive então uma ideia. Um pouco maquievélica e ilegal, talvez, mas isso só me incentivou a fazê-la. Saí da sala, sem conseguir deixar de olhar para a lista de tarefas, que me condenava a lavar a loiça no dia a seguir. Desci as escadas, tentando fazer o mínimo de ruído possível, tirei o molho de chaves da gaveta da dona Dina e entrei sorrateiramente na biblioteca.
Silêncio. Paraíso. A biblioteca submersa na escuridão, iluminada apenas pela luz do meu telemóvel. Há que ser discreta...
Dirigi-me para a secção mais afastada, música antiga. Nunca tinha oportunidade de a observar livremente, longe do olhar crítico do Sr.Viana. Rapidamente encontrei dois livros de madrigais de Monteverdi e de Luzzaschi...Perfeito!
Peguei neles, tendo o cuidado de memorizar exactamente onde estavam, para os por no sítio antes de amanhecer. Voltei à 32, e no momento em que ia fechar a porta, ouvi um barulho vindo do bar. Fiquei à escuta, a pensar o que andaria alguém a fazer àquela hora da noite: o barulho de um plástico a ser aberto, o som metálico de talheres a chocar, uma tampa a desenroscar-se...a sequência já bem minha conhecida da sonoridade da concepção de um pão com Nutella (ou melhor, com Choco Kid do Pingo Doce).
'Alberto, Alberto', pensei, abanando a cabeça. Mas depois, o comilão nocturno começou a trautear uma melodia, muito suavemente. Michael Jackson. 'Pronto, afinal é o André'.
André, o Vice-Presidente, possivelmente o único da velha guarda com paciência para os miúdos, o grande organista do IGL e a pessoa com mais e melhores ideias daquela escola. E também com mais energia e afinco para as por em prática.
Depois de acabar de ler no clavicórdio quase um livro inteiro de madrigais, dirigi-me ao quarto, reparando de imediato na cama vazia da Laura. Laura, a Presidente, a pessoa com uma personalidade poderosa e uma capacidade de 'get things done' inultrapassável.
Pensei, sorrindo, na sorte que o Gregoriano tinha em ter pessoas como estes dois à frente da AE. Muita sorte.
Lembrei a quase-discussão que eu e a Ana tínhamos tido com a Laura, a tentar dissuadi-la de fazer o turno de vigia.
'Eu quero fazer a vigia' tinha dito eu 'Queres me tirar o prazer de castigar um miúdo se ele fizer asneira?'
'E queres me tirar a oportunidade de adormecer a ver a 6ª season de Friends?' argumentara a Ana.
Mas não resultou, com o seu ar mais casmurro a Laura limitara-se a responder:
'Có-có'
Voltei ao tempo presente e lembrei-me de que tinha de devolver os livros ao sítio a que pertenciam, para não ser expulsa ou torturada pela direcção.
Dirigi-me à biblioteca e qual não é o meu espanto quando vejo luz passar pelo vidro fosco da porta. Hesitante, espreitei, deparando-me com o Afonso, despenteado, com o olhar vidrado no ecrã do computador, uma mão no teclado e na outra um sumo de maçã.
'Afonso! A navegar a estas horas?' perguntei, com o sobrolho ligeiramente erguido.
'Pois, aaa, coiso. Fungos' respondeu, sem desviar os olhos do computador.
Olhei para o ecrã e vi imagens de paredes nojificadas por fungos verdes. Arrumei os livros tal como estavam e fechei a prateleira à chave.
'Enfim, pessoas de Ciências. Como é que é possível...' disse, em tom de brincadeira, e saí da biblioteca.
Ao voltar para o quarto deparei-me com a Rita, que se tinha levantado para ir beber um copo de água.
'Então, Maria...levantada a estas horas?...' perguntou, com um semi-sorriso, um olhar penetrante e esfregando as mãos, imitando na perfeição a reacção da professora Elsa aos atrasos dos alunos.
Ri-me baixinho e mostrei-lhe o molho de partituras que tinha na mão. Ela percebeu de imediato e trauteámos rapidamente 'Io mi son Gio-vi-net-ta'.
Voltei para o quarto e subi o beliche. Na cama de baixo, a Filipa dormia, imperturbável.
'Imperturbáveis', pensei, sorrindo. É isso que a Música nos torna. Mesmo quando tudo parece correr mal, há sempre uma melodia que nos faz por um lado desligar da realidade e das preocupações e, por outro ter consciência daquilo para que tanto trabalhamos.
Há coisas que não se explicam.
A hora de deitar dos mais novos já tinha ido há muito, e os mais velhos preparavam-se para dormir. Depois de deixar a Bayley na 32 às voltas com o Schütz, resolvi ir preparar-me para a vigia. BOLACHAS. Não conseguia decidir, portanto assaltei a despensa do último piso, incluindo as crackers especiais da Débora. Calmamente abri a porta do quarto delas: a Eunice tinha-se esquecido de apagar a luz, como sempre e a Mafalda fez-me sinal baixinho para a apagar. Sussurrei-lhe um boa noite e voltei à minha ronda. No meu quarto, a Filipa e a Teresa riem à gargalhada, a Rita estava outra vez a falar enquanto dormia! A Ana passava fotografias da Baixa para o computador comum e mandou-me 'aquele' olhar, temos mesmo que falar amanhã. Grunhi-lhes que falassem baixo que as outras queriam dormir e saí.
Nas escadas cruzo-me com a Magui e tenho um momento nostálgico.. quando entrámos para a escola primária e dançávamos juntas as danças regionais.. Quem diria que passados todos estes anos ainda estarias na minha vida..
'Porque é que estás a olhar assim p'ra mim?'
'Annhh? Nada, nada. Vá, vou lá p'ra baixo.'
'Olha, o Jorge está outra vez a verificar os números de série dos pianos, vê se fazes qualquer coisa, que aquilo dá um estardalhaço descomunal!'
'Ok, vou-lhe atiçar o Alberto aos calcanhares.'
Sorri. É incrível como esta família gregoriana nos consegue surpreender sempre. Conhecemo-nos todos tão bem, e mesmo assim.. É uma descoberta.
Piso dos rapazes.. Pelo som constante e calmo das respirações, está tudo bem.. Excepto como sempre os ténis do miúdo Bruno, atirados no corredor.
'Faz parte da ronda arrumar os despojos dos miúdos? Não há uma equipa para isso? Não estou na equipa de babysitting esta noite!' - Pensamentos nada simpáticos que me atravessam o espírito.. Continuo a descer.
'Leit'-com-choc'lat'-com-choc'laaaaat' - a Bayley continua na 32.
De resto, tudo calmo. As lâmpadas da parede da escada estão já fracas, mas essa luz tremeluzente ainda dá um ar mais acolhedor à nossa casa. Olho lá para baixo e verifico que mais uma vez ficaram cá os guarda-chuvas do Martin e do Cristiano.. Como de costume, passo no armário dos violoncelos e conto-os. 'Pareço o Jorge..', penso, sorrindo. Ok, tudo certo.
Desço finalmente ao piso térreo. Lá atrás estão o Tiago e a Raquel a conversar baixinho, resolvo não os incomodar e começo a tornar a Sala de Alunos um espaço mais agradável: pouso as bolachas em cima da mesa e ligo a televisão, dobro as mantas em cima do cadeirão e procuro a caixa dos medicamentos na nossa caixa. 'Aaahh, o meu reino por um Benuron!!', suspiro.
Depois vou à procura do Jorge na sala 18, seguindo o som daquele Lá.
'NEEEEEEERD! Ao menos vai prá biblioteca! 1,2,3!'. Gosto sempre de citar o Tozé, nestes momentos, parece que resulta!
'Aaai! Pronto, eu estava só a ver se..'
'TU VÊS ISSO DE CINCO EM CINCO MINUTOS! NEEEERD!'
Deixo-o a fechar o piano de cauda, e volto para a Sala. A Sala. A nossa Sala, em que tanto vivemos. Ainda me lembro do dia em que decidimos, numa reunião da AE, virar a mesa no outro sentido! A melhor decisão da AEIGL! Sento-me no sofá, o Benuron começa a fazer efeito. Uma sonolência imensa.. Deito-me sobre a minha almofada preferida e começo a cantarolar a Giovinetta que por acaso está a dar no Mezzo. 'NERD!', penso. Ainda por cima da Música Antiga! A Bayley devia estar aqui.. Mas eu .. agora tenho soooo...no..
*Ploc, plim! Tink!* Entreabro os olhos, vejo uma sandes de Nutella e um copo desfocados em cima da mesa e ouço um trautear de Michael Jackson lá ao fundo do corredor.. André!.. Mas porque é que ele não está a comer?... Uaaahh.. Tenho sono, que horas são? Quatro.. Quatro fatias de Panrico.. - Levanto-me a custo e vou ver.
'Para a melhor Presidente do mundo?' ... Mas? - sorrio, devagar - se ele soubesse a ajuda que me tem dado. Há coisas que não se explicam.. uma delas é porque é que me apetece sempre chamar-lhe irmão..
Volto para o sofá, aconchegando-me nos 2 cobertores e lençol que soube que tinha sido ele a pôr. Sorrio e digo baixinho - 'Boa noite. Minha família..', e adormeço feliz. Cansada, calma e feliz.
Ocasiões
O quarto estava num profundo repouso. A minha cama é o "andar" de cima do beliche que está encostado à parede onde na sala 28 há o quadro. Na cama de baixo dorme o Jorge. No beliche oposto, dorme o Alberto e o Ricardo. No beliche da parede de ligação com a outra sala (neste caso, outro quarto), dorme o Tiago Amaro e o Afonso.
Eu estava deitado de barriga para cima, tinha o mp3 ligado. Nao tinha sono. Resolvi entao levantar-me e dar um passeio pela nossa escola.
Esqueci-me, por momentos, que estava num beliche. E ao tentar sair, cai literalmente no chão. Estantelado no chão, fiz um enorme esforço para nao me desmanchar a rir.
O Alberto grunhiu algo durante o seu sono, como um "Humpf... mas... está.. aí?" e logo a seguir voltou-se para o outro lado da cama. Desta vez tive que por a mao a tapar-me a enorme gargalhada que teimava em sair.
Desci as escadas lentamente. Muito lentamente. Imaginei aquelas escadas nas horas de maior afluência.
.. .. Olha, ali vai o Tiago Oliveira. Ah, claro. A Raquel ja está impaciente, coitada... O Grilo? Ah, sim. Vai ter aula com o Armando... ..
E desligando da imaginação, resolvi ir à sala comum, vulgo sala dos alunos. Havia uma luz acesa. Nao me lembrei de quem estava a fazer a vigia. Caminhei lentamente. Encostei a cabeça à entrada.
A Laura dormia profundamente no sofá. Natural. Tinhamos ficado um bocado de "pé-atrás" contra ela retomar já as vigias, mas a vontade era muita. Comprendo..
Tinha a televisão ligada. O comando estava no chão, tinha-o deixado cair. Alguns pacotes de bolachas estavam abertos em cima da mesa.
Pensei em acorda-la, mas ter que subir 2 andares e ainda ir-se deitar, era chato. Principalmente porque nao convinha nada.
Entao, como nao tinha sono, resolvi tomar o atalho das escadas que dao acesso ao bar do primeiro andar, e zás.. outro lance de escadas subido, e estava no meu andar. A zona do bar do primeiro andar equivale ao armazem do andar dos rapazes: onde se guarda tudo o que é geral: num armário, material. Noutro, roupa. Noutro, lençois e almofadas, coisas assim.
Peguei em 2 cobertores, num lençol e numa almofada. Sacudi e tossi. Entao, num ápice pus-me na sala comum.
Laura continuava a dormir profudamente. Sorri. Ela estava a dormir com um sorriso. Engraçado!
Envolvia, entao, primeiro, com um lençol. Depois os dois cobertores, e por ultimo uma almofada. Apaguei a televisao, a luz, e ia preparar-me para voltar ao meu quarto quando tive uma excelente ideia:
Foi à secretária da Dona Lina, tirei um papel e uma caneta. Subi rapidamente ao primeiro andar, para ir ter ao bar. Peguei nas sandes da Panrico, e com cuidado e carinho, fiz duas espectaculares sandes de Nutella. Vasculhei por um tabuleiro. Encontrei. Pus, entao, as duas sandes num prato, acompanhadas por dois sumos de laranja. Uns guardanapos e pronto, estava feito.
Desci as escadas com cuidado. Empurrei a porta da sala comum com o pé, e meio ás cegas pus o tabuleiro em cima da mesa. Ia-me embora quando me lembrei o porque de ter o papel e a caneta no bolso: voltei para trás, acendi a luz do telemovel. Suficiente para escrever em letras garrafais:
"Um pequeno almoço para a melhor Presidente do mundo!".
Trabalho concluido. E ela continuava a dormir profundamente! Puxei-lhe os cobertores que ja teimavam em ficar num emaranhado.
Voltei entao para o meu quarto. Enquanto subia as escadas, ri-me alto.
"Tudo está bem quando acaba bem!", soltei em voz baixa, antes de fechar as luzes do corredor e entrar no meu quarto.
E quando ia a subir para o beliche, voltei a escorregar.
Decidi puxar do meu saco cama e dormir no chao!
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Noites passadas no IGL
Comecei a ronda. Fui até à sala de coro, professores e a outra, tudo normal. Voltei para dentro. Lá fora fazia um frio de morte.
Na sala de alunos, estava tudo nos conformes. Talvez um pouco dessarumado. Detesto quando nao deixam o comando em cima da televisão. Depois queremos ver o "Mezzo" e tem que se andar a clicar no botao da televisao. O DVD tinha ficado ligado, e o sofá estava cheio de migalhas de pipocas.
Verifiquei quem tinha querido comprar os Graduais Triplex, no placar, e ainda so tinha 4 nomes. Sorri. Mas quem é que nao ia querer aproveitar esta promoção?
Umas partituras estavam soltas em cima da mesa. Peguei. Educação Vocal. Alguem há-de dar conta que desapareceu, pensei.
Sentei-me no sofá, liguei a aparelhagem. Talvez a ronda pudesse esperar mais um pouco. Peguei num cd que tinha perto. "Handel - Organ Concertos". Poderoso. Mas é que é mesmo!
Estava pronto a fechar os olhos, para eu tambem dormir ao som de tao boa musica, quando senti passos no corredor. Levantei-me num àpice. Preparava-me para ralhar. Afinal, nao é permitido andar na parte de baixo depois da hora de deitar, que ja tinha passado à um bom bocado.
Quando sai da sala de alunos, vi uma das miuditas gemeas loiras.
"Beatriz?" , perguntei, entre um sorriso e preocupação.
"Não, sou a Leonor, André...", respondeu-me. Já é costume eu nao as conseguir distinguir.
"Entao, Leonor, que se passa?"
"... Nao consigo dormir..."
Suspirei de alivio. Peguei-lhe na mao e levei-a até ao seu dormitório.
"Anda. Eu conto-te uma história.", disse-lhe, enquanto atravessa a cozinha para ir ter às escadas de acesso ao segundo andar.
Entrámos no dormitório das raparigas. Estava tudo a dormir. Ouvia-se uma respiração lenta e calma em cada local.
Deitei-a na cama, puxei-lhe os lençois, enquanto punha uma cadeira ao lado da sua cama.
"Que história é que me vais contar, André?", perguntou com aquele seu ar misterioso.
Olhei em volta. Lembrei-me entao de um truque que costumo usar. Fui até à mesa comum da sala, e procurei por um livro em especial. Encontrei-o.
Voltei e sentei-me.
"Gradual? Mas isso nao é um livro que voces, os grandes, usam para cantar?", perguntou.
Ri-me e nao disse nada. Abri o livro, e fiz um ar de espanto, como se tivesse acabado de encontrar exactamente a história que queria. E entao, no improviso, lancei:
"Era uma vez o Rui. O Rui era um menino como tantos outros. Tinha os seus sonhos, passatempos, aventuras, amigos e amigas. Mas o Rui tinha algo mais: tinha um amiga especial. Falava-lhe todos os dias. Tinham discussoes, muitas vezes! Outras riam-se perdidamente, chegavam a chorar de tanto rir. Eram grandes amigos. Inseparaveis. Um dia, Rui recebeu uma notícia muito triste: a sua amiga ia-se mudar para outra cidade..."
"Porque?", interrompeu-me a Leonor, com os olhos ja quase a fecharem-se.
"Nao sei, aqui nao diz. Talvez nao fosse importante. O que interessava é que eles iam ficar separados."
"Oh... mas podiam falar por telemovel!"
"Mas quando escreveram esta história ainda nao haviam telemoveis. Mas so ca para nos, essa era uma ideia genial!"
Leonor riu-se. Reconfortou-se um bocado mais. Eu continuei:
"Rui nao desistiu. Nao podia deixar a sua melhor amiga ir embora. Entao, um dos dias antes de a sua amiga partir, foi falar com ela. Foi dizer o quanto gostava dela. O quanto queria ficar com ela..."
"Blergh.. essa história é um bocado lamechas. Mas eles eram amigos ou namorados?"
"Amigos. Foi então que Rui teve uma ideia brilhante. E se ele se mudasse tambem?"
"Os pais deixavam?"
"Acho que sim, aqui nao diz nada! Ora deixa cá ver onde estava.. ah, aqui!... e foi assim, o Rui tambem foi para a outra cidade. Afinal, ele nao se podia separar da Música."
Fiz uma pausa. A história tinha acabado, Leonor estava quase a dormir, mas nao muito convecida da história.
"Esse livro é um bocado rasca..."
"Hum...", disse eu, enquanto fingia inspecionar a capa, "nem por isso. Daqui a uns anos vais ver que nao!"
E fiz silêncio. Deixei-me ficar ali. Ela continuava com a minha mao dada. Até que deixou de fazer força. E mais uma respiração lenta e calma surgia.
Peguei na cadeira, pu-la no lugar, e pé-ante-pé sai do quarto.
"Boa noite", sussurrei.
Amanha é outro dia. Inseparavel.